• Twitter
  • Facebook
Home \ TORÁzinha \ Ver o futuro desde o início da ação

Ver o futuro desde o início da ação

30.01.11  |   TORÁzinha  |  Marcella Becker

Havia um rei que amava muito um certo sábio judeu, pois o considerava muito capaz e um excelente conselheiro, razão pela qual o nomeou vice-rei. Este sábio costumava dirigir todas as províncias do reino de maneira correta, o que permitiu que o rei ascendesse várias vezes, mais que os demais reis em poder naquela época. Além disso, seus tesouros se multiplicaram notoriamente e tudo por causa do seu vice-rei, este sábio judeu, que era também aceito por todos no reino, tanto grandes quanto pequenos.

Só que havia um alfaiate não judeu que tinha muita inveja dele e que compôs várias canções cheias de ataques vergonhosos contra os judeus. Ele morava no caminho que levava à feira, e o rei e seu vice tinham que passar por lá com sua carruagem governamental. Ele realizava seu trabalho no terraço da casa, que tinha uma grande janela que dava para o mercado.

Quando o alfaiate ficou sabendo que o rei ia passar pelo mercado na sua carruagem, acompanhado pelo seu vice, o judeu, ele se aproximou da janela e cantou em voz alta e agradável aos ouvidos as canções que tinha composto e cujas letras continham palavras de ofensa contra os judeus.

O rei, sentado na carruagem, escutou as canções e compreendeu que as ofensas aos judeus se deviam ao seu vice. Enfurecido, o rei ordenou ao seu substituto que saísse do carro de imediato, trouxesse este alfaiate e lhe cortasse a língua.

O vice-rei despediu-se do rei, foi à casa do alfaiate com um presente na mão, começou a falar bem dele e retirou-se. Mais tarde o alfaiate compôs novas canções que falavam das bondades dos judeus e das suas virtudes.

Aconteceu que na semana seguinte o rei passou novamente por ali, montado na sua carruagem e com o vice-rei, como de costume. E quando o transporte se aproximava da região do mercado, o alfaiate começou a entoar as novas canções que tinha composto, perto da janela que dava para o mercado, e que falavam bem dos judeus e os elogiavam muito.

Quando o rei escutou a voz do alfaiate, antes da carruagem passar pela casa deste, zangou-se com seu substituto e lhe disse: “Por que não lhe cortou a língua como ordenei?” Ao qual ele respondeu: “Meu senhor, eu assim o fiz. Cortei-lhe a língua que falava coisas repudiáveis e coloquei-lhe uma nova. E agora preste atenção, veja como ele usa uma linguagem nova que não é como a anterior, mas sim completamente diferente!”

Quando a carruagem se aproximou e passou em frente à casa do alfaiate, as palavras eram bem audíveis e o rei escutou que as canções que o alfaiate cantava agora continham odes aos judeus, ao contrário das anteriores.

O rei se espantou, tendo compreendido que por meio de suborno, o seu vice tinha mudado a linguagem do alfaiate, e lhe disse: “De todas maneiras, se você tivesse feito como ordenei primeiro eu estaria mais satisfeito”.

O sábio judeu lhe respondeu:

“Senhor rei, fiz isso em sua honra. Minha intenção foi guardar a sua honra. Por isso não lhe cortei a língua e fiz de maneira que ele invertesse a sua linguagem por si mesmo. Se eu tivesse cortado a língua dele, os outros não-judeus poderiam dizer que este alfaiate não tinha cometido nenhum pecado com a língua e que não tinha mentido; e que todas as ofensas e insultos que dissera contra os judeus eram verdadeiros. Diriam que o                                   rei, pelo afeto que sentia por seu vice judeu, decretara injustamente que se cortasse a língua do alfaiate”.

“Agora que agi deste modo, que o subornei para que por meio do dinheiro mudasse sua linguagem, ele testemunha por sua própria boca que mentiu; de qualquer maneira, que importância tem se mentiu nestas novas canções ou nas primeiras? Seja como for, elas se contradizem e isso mostra que em alguma das duas etapas ele mentiu. E se o acusado reconhece por si mesmo, é como se houvesse cem testemunhas sobre a coisa. E se logo depois, ele voltar a falar mal, já não se acreditará mais nele e assim todas as suas palavras serão vãs e com isso os não-judeus saberão que o amor do rei pelos judeus não é um erro, coisa que não aconteceria se houvesse cortado a língua do alfaiate, e eles teriam blasfemado contra o senhor e teriam justificado as palavras do alfaiate”.

Comentários fechados.