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Ultrapassando os obstáculos

04.01.11  |   TORÁzinha  |  Marcella Becker

BS”D

     Às vezes, sentimos que a maneira como as coisas acontecem conosco nos faz agir de maneira ruim, e que nós estamos presos a esse comportamento e não podemos mudá-lo. Porém aprendemos na Torá que Rivka, a nossa matriarca, nasceu e cresceu entre as pessoas mais egoístas e mais desonestas. Mesmo assim ela resolveu quebrar este paradigma e se transformou em um dos maiores exemplos de mulher virtuosa que já existiu. D-us dá a cada um a capacidade de ultrapassar nossos obstáculos, se estivermos dispostos a tentar.

     Desde que era um garotinho, Shimon tinha aprendido que a única maneira de não ser passado para trás era pisar em cima dos outros duas vezes mais forte que do que gostariam de pisar em você.

     Ele já havia começado o dia em uma briga na van da escola. Estava prestes a se sentar em um banco quando outro garoto veio rápido e sentou primeiro. Na sua antiga escola em seu antigo bairro todas as crianças teriam brigado entre si para obter e manter os seus lugares regulares. Aqui, na nova escola, que ele havia entrado a pouco tempo, não tinha ainda um lugar marcado. Por isso, pensou que o melhor era brigar pelo direito de ter um.

     Ele agarrou o garoto, que estava com um olhar surpreendido, pelo colarinho e lhe deu um belo tapa. Eles estavam se agarrando quando o motorista da van parou no meio-fio da rua. “Shimon, esta é a terceira vez que você briga dentro da van!”, disse o motorista. “Quando chegarmos à escola você vai se entender com a diretoria!”

     Ele esperou sua vez na sala de espera da diretoria, porém não estava com medo. Em sua antiga escola, o diretor era um homem de aparência forte e gritava alto mesmo por coisas pequenas. Mas pelo que ele havia visto e ouvido do seu novo diretor, o Sr. Bergman, o homem era mole como manteiga, e ele achava que este gentil senhor não iria fazer nada como aquilo que lhe acontecia em sua ex-escola.

     A porta se abriu e o diretor o chamou. “Shimon, você tem se envolvido em muitas brigas ultimamente” ele disse, com uma voz calma e serena. “Não conheço sua antiga escola, mas não é assim que as coisas funcionam aqui. O garoto que você brigou hoje me disse que não sabia que você queria sentar naquele lugar. Que teria se levantado tranquilamente e sentado em outro banco, se você simplesmente tivesse dito que queria sentar lá.”

     “Olhe, Sr. Bergman” falou o garoto ansiosamente, “talvez você esteja certo. Eu não devia ter batido nele. Mas você tem que entender que esta é a minha forma de ser. Na escola em que cresci você tinha que lutar para sobreviver”.

     O diretor olhou penetrante para Shimon. “Olhe só, onde você acha que eu estudei?”

     “Ah! Aqui, ou provavelmente em uma dessas escolas de riquinho da vizinhança.”

     “E se eu lhe dissesse que estudei no PS 22?”

     Shimon pulou para trás. “Sério?!”. Essa era a escola mais barra pesada que ele conhecia. Mesmo os garotos mais fortes de sua ex-escola tinham medo de brigar com os garotos de lá. Como alguém tão educado e refinado pode ter vindo de um lugar de gente tão brusca?

     “Não somente que estudei lá, mas – que isso fique entre mim e você – eu era o garoto mais durão da minha classe. E se na época você tivesse me perguntado, eu diria que assim era minha forma de ser e sempre seria assim.”

     Antes ele estava louco para acabar a conversa, mas agora começava a ficar interessado. “Então, como você mudou?”

     O Sr. Bergman se recostou um pouco para trás, confortavelmente. “Uma vez, não sei por que, eu estava prestes a dar uma bofetada em um pirralho. Vi seus olhos cheios de pavor. Percebi que ela era uma pessoa real, com sentimentos, e não apenas um saco de pancada. Aos poucos fui mudando meu modo ser, e você também pode fazer o mesmo.”

    “Mas mesmo que eu queira mudar, não posso. Essa é minha natureza.”

   “Shimon” ele disse com um olhar penetrante, “Uma pessoa só tem uma má natureza se assim ela deixar.”

     Naquele mesmo dia, na hora do almoço, Shimon começou a sentir que uma turma de garotos estava dando uma de esperto e aos poucos passariam na frente dele na fila da comida.

    Ele pensou consigo mesmo: “Eu sei muito bem como lidar com gente esperta assim”. Um simples soco seria o suficiente para acabar com a brincadeira e mandaria uma mensagem a todos: NÃO TENTEM ME PASSAR PARA TRÁS!.

     Ele já estava preparando seu punho, deixando lentamente seu prato em cima do aparador, quando uma voz ecoou pela sua mente: “Uma pessoa só tem uma má natureza se assim ela deixar.”

     Shimon deu um longo suspiro, abrindo sua mão e saindo de sua posição ameaçadora. Talvez aqueles garotos não estivessem querendo furar a fila, talvez só estavam conversando sem perceber que o estavam empurrando e passando pela sua frente. Talvez ele realmente não precisasse provar para todo mundo que era o mais forte.

     Dando o melhor de si, Shimon se concentrou e falou para os garotos: “Será que vocês podiam chegar um pouco mais para lá? Estão me apertando aqui.”

    “Puxa vida” falou um deles, “me desculpe, nem percebi que você estava aí.” “É, foi mal” respondeu o outro. “Ei, você é novo na escola?” perguntou um terceiro.

     Shimon acenou com um sorriso. Assim ele começou a fazer novos amigos e percebeu o quanto ele estava mais feliz por ter ganhado sua última briga: a de conseguir ganhar de sua natureza para se tornar melhor.

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