• Twitter
  • Facebook
Home \ Chaguim \ Se você vivesse na época de Chanuká, acenderia uma Chanukiá ou teria uma árvore de Natal? – por Rav Rony Gurwicz

Se você vivesse na época de Chanuká, acenderia uma Chanukiá ou teria uma árvore de Natal? – por Rav Rony Gurwicz

30.01.11  |   Chaguim  |  Marcella Becker

Chanuká é uma dentre as duas únicas festas de nosso calendário que foram instituídas pelos nossos Sábios. O que eles viram de tão importante que justificasse santificar essa data por todas as gerações seguintes?

A resposta é que toda a história de Chanuká fala sobre a vitória judaica sobre a assimilação imposta pelos gregos. O problema da assimilação é um dilema atemporal, sempre está presente no cotidiano, independente de uma época específica.

Para vencer a assimilação há somente um caminho: uma educação extraordinária. Este é o milagre de Chanuká, e se bem estudado e aplicado pode e merece ser comemorado até hoje.

 

Um pouco de história

Nossos Sábios nos contam que o povo judeu foi fortemente oprimido na época em que o Império Grego chegou até Israel. Os gregos possuíam uma estratégia fantástica para ampliar seu poderio sobre a maior parte do mundo civilizado. Por um lado contavam com um exército poderoso, capaz de vencer grandes batalhas. Depois de vencer as guerras, o Império grego se via diante de outro problema: como evitar rebeliões.

Para que isso não ocorresse, enfeitiçavam os povos conquistados com um autêntico “greek way of life”. Um modo de vida onde o corpo e a beleza eram cultuados e onde a filosofia gerava a ideologia que sustentava essas forma de viver. As culturas locais eram esmagadas e a cultura grega entrava com toda força. A assimilação vinha naturalmente e, mais ainda, voluntariamente.

Este plano funcionou muito bem até os gregos chegarem a Israel. Após a conquista da terra, deveria vir o controle das mentes. Aquele modo de vida que idolatrava a busca por prazeres materiais sem peso na consciência, onde não havia preço pois vivemos uma só vida e devemos aproveitá-la ao máximo, deveria arrebatar os judeus da mesma forma como ocorrera em todos os outros lugares.

 

A reação judaica ao domínio grego

A reação dos judeus ao controle cultural e religioso foi muito interessante. Um primeiro grupo respondeu como esperavam os gregos. Abraçaram a cultura “moderna e avançada” helenista e desprezaram aquilo que seus pais e os pais de seus pais lhes transmitiram. Em pouco tempo, a sagrada Torá, milenar fonte de conhecimento foi considerada obsoleta. Suas leis impediam o homem de curtir a vida, cerceavam sua liberdade. Já a filosofia helenista permitia tudo, sem limites morais ou objetivos espirituais elevados.

Esse foi o grupo dos Tzdukim (Saduceus), que tão entusiasmados ficaram que procuraram reformar a religião judaica de forma que se adaptasse aos novos valores. Esse grupo rápido e facilmente se assimilou através de casamentos mistos, adoção de nomes gregos e daí por diante. Acabaram por lutar física e espiritualmente contra seu próprio povo em nome da modernização do judaísmo. Não podemos deixar de atentar que historicamente esse grupo DESAPARECEU, completamente assimilado. Nada restou desses judeus e desse “judaísmo”.

O segundo grupo foi o dos Prushim (Fariseus). Esse é o conjunto de judeus que mais conhecia a Torá e, não por acaso, mais a valorizava. Não estava disposto a abrir mão do cumprimento das mitsvot, pois sabiam que elas não eram a vontade de um homem, mas sim mandamentos Divinos que visam refinar e elevar o corpo e a alma dos que as seguem. Por serem Sábios conseguiam perceber como nossa cultura não precisa de adaptações ou reformas, pois foram dadas por D’us, para os judeus de todas as gerações, em todos os lugares. Esse mesmo D’us não escreveu: “Mais tarde na história, essas leis não serão mais relevantes”. Se tivesse escrito, não seria D’us. Os Prushim possuíam tamanho conhecimento que tinham em suas mentes as regras que são capazes de tratar de todo  e qualquer assuntou ou novidade tecnológica (para maiores detalhes, ouça nosso cd sobre “Doação de órgãos – a visão judaica”).

Por esses e outros motivos, os Prushim não aceitaram assimilar outra cultura. Valorizavam o seu modo de viver e viviam como judeus com orgulho e distinção. Tamanha era a certeza do seu caminho que estavam dispostos a lutar com unha e dentes por ele.

Sobre eles está escrito no sidur: “Agradecemos a D’us pelos milagres, pela bravura, pela salvação que Você (D ‘us) fez com nossos antepassados, nesses dias (de Chanuká). Quando se levantaram os gregos (nos dias de Matitiahu HaCohen) e tentaram fazer com que Am Israel esquecesse a Sua Torá, retirar de vocês os mandamentos divinos… e Você esteve com eles e lutou sua guerra e permitiu que poucos sobrepusessem os numerosos, os puros vencessem os impuros…”.

Esses judeus mantiveram a chama judaica acessa e tiveram o mérito de conseguir fazer com que boa parte do povo entendesse que era o seu futuro que estava em jogo.

 

Uma pergunta provocante e atual

Agora responda com sinceridade. Se você vivesse naquela época estaria com os Prushim ou com os Tzdukim? Se você pensa que esta pergunta é hipotética, está muito enganado. O dilema de se manter judeu, carregando os mais puros, profundos e elevados valores da Torá nos dias de hoje continua. Você aceita o desafio ou prefere dizer que isso tudo já está “demodê”?

A cultura que nos cerca é fortíssima. E ela traz de forma inequívoca que religião é coisa do passado e que devemos aproveitar essa vida pois ela é única. O famoso Carpe Diem. Como educamos nossos filhos? Quais os valores mais importantes que lhes transmitimos, direta ou indiretamente? Faz pouco tempo ouvi um relato impressionante. Uma senhora já idosa, muito sábia, me deixou com lágrimas nos olhos. Ela afirmou em frente as suas amigas, que concordaram com cada palavra que ela dizia, que “nós soubemos criar médicos, engenheiros e advogados espetaculares. Mas, e judeus? Ficamos tão preocupadas com a matéria que nos esquecemos do espírito. Agora nossos netos não querem mais saber de Pessach ou de Torá. O erro foi feito e nossa vida passou. Como consertar?”

Que Chesbon Nefesh (reflexão sobre os atos) verdadeiro e doloroso. Temos que aprender com a sabedoria de quem já passou pelo intrigante e desafiador caminho da vida, para não cometermos os mesmos erros.

Os tzdukim desapareceram e infelizmente no Brasil estamos diminuindo, com uma taxa de 70% de assimilação. Chanuká é hoje, não no passado. Precisamos ter a bravura dos Macabeus e aprender a não sucumbir a uma cultura estranha. Manter a nós e a nossos filhos judeus em escolas judaicas que valorizam a Torá e tem orgulho dela. Que não tratem de nossas mitsvot como algo primitivo ou folclórico, mas sim como algo vivo e verdadeiro, cheio de significado e atual.

O hino de Israel representa, nesse contexto, a não assimilação nacional, quando lembramos que Am Israel tem uma nação própria, uma terra santa que nos pertence. As palavras do hino talvez expressem esse sentimento de forma mais emocionante: “Enquanto houver bem dentro do coração uma alma judia que ainda sonha… Nossa esperança não acabou, uma esperança com 2000 anos de ser um povo livre em nossa terra, a terra de Tzion e Jerusalém”.

Que tenhamos perseverança e sabedoria para conseguirmos perseguir e alcançar os objetivos culturais, espirituais e nacionais. Que não permitamos que nossos verdadeiros e profundos valores sejam trocados por samba, futebol e novela das oito. Que nossa Torá seja nossa fonte de inspiração e orgulho e que os Tzdukim de hoje em dia se iluminem e não tentem jogar contra seu próprio time. Sem dúvida, para que essa brachá se concretize é necessário que estudemos nossas fontes pelo menos com a seriedade com que encaramos os estudos laicos. Faça parte de um milagre, acenda a Chanukiá e seus ideais o ano todo em sua casa.

Comentários fechados.