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Purim – por Fábio Erlich

18.03.11  |   Chaguim  |  Marcella Becker

BS”D

 FÍSICO E ESPIRITUAL – CONSTRUINDO A FELICIDADE

Baseado no shiur do Rav Yissocher Frand

Há uma diferença muito significativa entre o judaísmo e outras religiões. Muitas religiões acreditam em uma dicotomia básica entre o físico e o espiritual. É por isso que acreditam que seu povo santo deve permanecer afastado de qualquer tipo de contato com o mundo físico. Há a sustentação de que, se uma pessoa realmente quer chegar a espiritualidade, ela deve separar-se de coisas físicas. Quanto mais separado do físico, mais uma pessoa pode se tornar “sagrada”. O judaísmo nos ensina exatamente o oposto. A Torá nos ensina que a mais alta forma de santidade pode vir através de assuntos materiais.

Percebemos essa idéia de uma forma muito evidente na festa de Purim Em Purim existe uma mitzvá que é a de se realizar uma refeição festiva, denominada seudat Purim. Esta é obviamente, uma atividade física básica, ou seja, comer e beber, mas o preceito é transformar essa atividade em algo superior e elevado – e não apenas encher o estômago de alguém ou usar a bebida como uma desculpa para agir de maneira inadequada. Existem pessoas que não conseguem entender como o físico e o espiritual devem e precisam estar caminhando lado a lado, juntos, acreditando que onde há um, supostamente não poderia existir o outro. Porém, um iehudi é capaz de comer e beber e – mesmo nesse estado – santificar o nome do Criador do Mundo. Isso é Purim!

Nossos sábios nos dizem que Yom Kipur é um dia como Purim (Yom kePurim). Interessante observarmos que um dia antes de Yom Kipur fazemos um banquete festivo, onde temos uma obrigação de comermos alegremente e quando chega o tão temível dia de Yom Kipur, nós jejuamos o dia inteiro. Em Purim acontece exatamente o oposto: no dia antes de Purim jejuamos (Taanit Ester) e em Purim, festejamos de uma forma alegre, descontraída e vestindo roupas festivas.

Chazal (nossos sábios) declaram que os nomes dessas festas são redigidos de tal forma, que o Yom Kipur – o que está sendo comparado ao Purim – parece ser secundário, e Purim parece ser primário. A razão para isto é que em Purim, podemos atingir um nível de espiritualidade maior ainda que em Yom Kipur!

Em Yom Kippur, conseguimos uma espiritualidade que vem através do jejum e da abstenção. Em Purim, a preparação vem através do jejum, mas o objetivo final é sentar e realizar uma refeição festiva e alcançar a espiritualidade através da festa!

A Guemará [Talmud, tratado Chulin 139B] pergunta: “De onde podemos ver na Torá uma alusão para o nome de Haman?” A resposta da Guemará traz um versículo contido em Sefer Bereshit quandio fala sobre o pecado de Adam Harishon, o primeiro homem: “Hamin ha’etz…הֲמִן-הָעֵץ” (Você comeu desta árvore?) [Bereshit 3:11]. Sem as vogais, as letras hebraicas da palavra Hamin (הֲמִן) são as mesmas que as letras hebraicas do nome de Haman (הָמָן). Este é um tipo de Guemará que não pode ser entendido em um nível superficial, onde certamente o Talmud não está fazendo apenas um jogo de palavras!

Na realidade, a Guemará está nos dizendo o seguinte: “Onde é que a Torá faz alusão ao conceito representado por Haman?” A resposta é que a essência de Haman está no versículo: “Você comeu desta árvore?” Rav Bergman explica que Haman era um indivíduo que tinha tudo. Nossos sábios dizem que ele foi uma das pessoas mais ricas do mundo. Ele foi o segundo no comando do rei. Ele tinha tudo o que se podia pedir da vida – dinheiro, poder, família – tudo! E, no entanto, o que Haman disse ao ver Mordechai, o judeu sentado à porta do rei” (recusando-se a curvar-se para ele – [Ester 3:2])? Disse: “tudo isso é inútil para mim… וְכָל-זֶה, אֵינֶנּוּ שֹׁוֶה לִי” [Ester 5:13 ]. Porque uma vez que para Haman estava faltando algo que era representado pelo fato de Mordechai não se curvar para ele, tudo se tornou inútil e sem valor no seu ponto de vista. Ou seja, Haman tinha tudo, mas uma única “falta” em sua vida, representava a falta de tudo o que tinha.

Essa pessoa nunca será feliz. Para que uma pessoa seja feliz, é preciso estar contente com a sua vida e com o que possui. Haman representa a antítese de quem está feliz com o que tem. Haman representa o descontentamento perene. É a representatividade de quem nunca está feliz, ou seja, pode ter dinheiro, poder e prestígio e ainda declará-los inúteis e sem qualquer valor.

A Guemará pergunta: onde é que vamos ver este atributo na Torá – que se pode ter tudo, mas ainda não ficar satisfeito? A resposta que vimos se baseia em Adam no Jardim do Éden. Adam tinha literalmente tudo – espiritualidade, luxo físico, anjos para servi-lo – tudo! Faltava-lhe apenas uma coisa: o acesso à Árvore do Conhecimento. Adam não estava satisfeito e sucumbiu ao pecado que nos levou até o caminho para o mundo como ele existe nos dias de hoje. Haman personificou o mesmo traço de caráter, qual seja, o de não estar satisfeito mesmo quando se tem quase tudo.

Esta é uma lição muito importante para aprendermos em Purim. A mitzvá de Purim é uma das mitzvot mais difíceis, que escapa do homem moderno. A mitzvá é “simplesmente” ser feliz. Alguém poderia pensar que a mitzvá de Simchá (ser feliz) é uma mitzvá fácil, mas sabemos por experiência que não é tão fácil assim. A felicidade não vem até nós com facilidade. Temos sempre tantas coisas para se preocupar, que é muito difícil ser feliz.

Qual é a chave para a felicidade? Uma pessoa torna-se feliz por ser “sameach b’chelko” – aquele que está feliz com a sua porção. Temos que pensar o que nós temos e não no que nos falta. Se uma pessoa – graças a D’us – está vivendo, é cercado por sua família, tem a sua saúde, vive em um país onde ele pode realizar mitzvót, certamente ele tem MUITO! Somente nós podemos aprender a não ser como Haman no mundo.

Temos de nos afastar da atitude de que “tudo isso é inútil para mim.” Esse é o desafio de Purim – a pensar em Haman e sobre como ele representa uma vida miserável, ou seja, que nunca será feliz e satisfeito. Devemos contemplar como ruim e deprimente essa atitude em relação a vida. Temos de superar essa atitude e passar a pensar realmente sempre sobre o que nós temos.

Então, e somente assim, podemos realmente cumprir a mitzvá do dia: “La’yehudim Haitá Orá Vessimchá Vesasson Vikar” (Para os judeus houve luz, alegria, felicidade e honra) [Ester 8:16].

Que sejamos a luz no meio da escuridão, que possamos iluminar o mundo através de nossos atos e pensamentos puros e que dessa forma, façamos com que a vinda de Mashiach esteja cada vez mais próxima dos nossos dias, Amén!

Purim Sameach!

 megilaMeuyeret Purim   por Fábio Erlich

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