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O Mundo dos negócios e o mundo judaico

30.01.11  |   Derech Eretz  |  Marcella Becker

Muita gente acha que não é possível viver de forma judaica no atual ambiente de negócios e de trabalho em geral. Isso, definitivamente, não é verdade.

D’us nos mandou trabalhar para nossa sobrevivência. E podem ter certeza que ele já sabia como seriam os diferentes ambientes de trabalho que teríamos através das gerações.

Então trabalhar é necessário. É uma mitzvá (mandamento divino), é uma obrigação ditada por D’us. Mas será que D’us nos mandou trabalhar sem termos uma vida judaica? Será que Ele nos daria uma obrigação dessa se soubesse que não seria possível cumprir os mandamentos que Ele mesmo nos ordenou? A resposta é não.

Ter uma vida judaica independe do momento, do ano, do trabalho, da condição financeira, do empregador, do empregado, independe de tudo. Se os judeus colocassem na cabeça que a vida judaica é a forma correta de se viver e que isso não muda e tem que ser assim por ordem de Quem fez esse mundo, tudo seria mais fácil.  Muitos têm sempre um “bom” motivo pelo qual deixam de cumprir mitzvot e sempre acham que consigo é diferente. Que não podem colocar os tefilin porque têm que estar cedo no trabalho ou que não podem comer kasher em virtude de suas diversas obrigações sociais. O fato é que quem quer e acredita que realmente D’us fez isso tudo que temos hoje, consegue.

Outros dizem que não conseguem fazer tudo e não fazem nada. Que estão imersos nas coisas do dia-a-dia e não têm tempo para pensar em coisas religiosas. Outros chegam a dizer que estão impuros demais para fazer coisas que eles mesmos entendem como “santas”. Já ouvi frases como “não vou colocar o tefilin porque estou impuro de tanta besteira que penso ou vivo todo dia”. Esse pensamento, sim, é uma grande besteira.

Queria aproveitar essa oportunidade que o Rav Rony me deu para passar um pouco do que vivo e sempre vivi como mais um trabalhador desse atribulado e difícil mundo de negócios.

Tenho um dia-a-dia muito parecido com a maioria das pessoas que trabalham em empresas. Muitas cobranças, “deadlines”, muita concorrência e às vezes até mesmo um ambiente canibal de trabalho, onde não basta ser bom, mas tem que ser melhor que o outro. Tenho que viajar a negócios, almoçar com clientes, trabalhar até altas horas da noite e da madrugada e acordar cedo. Preciso estar em eventos sociais diversos e agüentar pressões de chefes o tempo todo. Mas nem por isso deixo de acreditar que posso ter uma vida judaica plena. E a grande questão é que essa crença vale muito a pena.

Ninguém precisa acordar um dia e dizer: “a partir de hoje vou ser ortodoxo e cumprir todas as mitzvot”. Isso não é necessário, não é real e nem é recomendável pelos nossos sábios.  A nossa riquíssima religião acredita no “pouco a pouco”. Faz-se uma coisa. Depois outra. E vamos em frente, cada um dentro de suas possibilidades naquele momento e dentro do seu nível. O que não se pode aceitar é a desistência. Porque isso é que é triste. Desistir de algo antes de começar, antes de tentar.

Vou dar alguns exemplos de crescimentos que consegui ter ao longo dos últimos quatro anos em que tento voltar para minhas origens.

A primeira coisa que entendi foi que devia agradecer a D’us pelo o que Ele me deu. E isso vale para todos. Não sou rico, não tenho bens, com exceção de um carro ano 2001. Mas acho que devo agradecer a D’us, por exemplo, pela capacidade de crescer profissionalmente e pela saúde plena – posso ver, melhor depois de uma operação de miopia, ouvir, falar, me locomover.  Cada um sempre vai ter algo para agradecer, é só pensar um pouco. A humildade é fundamental para se aproximar de D’us e ninguém deve achar que é responsável por tudo o que tem. Todos têm problemas e dificuldades, todos passam por poucas e boas para poder chegar a algum lugar. Mas pensem bem, reflitam um pouco e tenho certeza que todos vão encontrar alguma coisa que aconteceu, que deu certo, que ajudou, e podem ter certeza que ali estava a mão de D’us.

Partindo dessa reflexão, vamos à prática. Será realmente que é impossível colocar o tefilin? Será que não dá para acordar um pouquinho mais cedo e gastar 10 minutos de manhã para colocar o tefilin e ler o Shemá Israel? Eu não acredito que isso não seja possível. Para quem for autônomo ou tiver um horário mais flexível, há o dia inteiro para fazer isso. Será que o dia inteiro é tão produtivo que não se pode parar 10 minutos? Vocês não sabem a alegria e a sensação de dever cumprido que temos quando colocamos o tefilin todos os dias. É uma sensação de “D’us mandou, eu cumpri, pelo menos uma mitzvá por dia”. É uma sensação de usar algo sagrado e se diferenciar em relação às outras pessoas do mundo que não têm o privilégio de ter mandamentos ditados diretamente por D’us somente para nós. As pessoas no mundo estão cada vez mais buscando espiritualidade e vejo até judeus buscando espiritualidade. Só que fora do judaísmo. Se eles soubessem da riqueza da nossa herança. Se eles soubessem que tudo que existe de espiritual do mundo veio de certa forma do judaísmo, não iriam atrás de outros cultos, mas achariam aqui, do nosso lado.

Outro exemplo, comida kasher. Esse é um tabu na nossa comunidade. É caro, difícil, não tem restaurantes, vários argumentos.  Mas será que não podemos fazer algo diferente.  Por exemplo, a coisa mais fácil do mundo é comer kasher no café da manhã. Sucrilhos é kasher. Para uma linha menos rigorosa, mas válida como kasher sem dúvida, leite é kasher. A coisa mais fácil de se comprar é pão kasher, além de ser delicioso. Tenho várias dicas para quem quiser comer um pão kasher e melhor que a maioria das padarias. Frutas são kasher. Cream cheese (polengui ou philadelphia) é kasher. Há várias marcas de geléia kasher, das melhores marcas. A questão então é: porque comer não kasher quando é possível fazê-lo. Tenha certeza que a sensação é ótima, de estar fazendo a coisa certa, de colocar para dentro de nosso corpo e de nossa alma algo que D’us concorda. Ele vai ficar feliz com isso. Garantido. Então, porque comprar um cereal diferente daquele que é kasher. Não precisa ser o Sucrilhos porque há outras marcas. Mas informe-se. Há sites, pessoas, listas que vão ajudá-lo(a) saber o que é e o que não é. Tem com açúcar, sem açúcar, chocolate, banana, etc. É só querer. E pronto, com muito facilidade, você vai ter uma das três refeições 100% kasher.  Depois de comer tudo isso, não vai ter tanta fome para o almoço. Brincadeira.  Mas o fato é que o almoço é uma questão a ser abordada.  Não é esperado que você pare agora, de uma hora para outra, de almoçar com clientes ou amigos do trabalho.  Mas será que não dá para evitar a carne porco (lombinho, presunto, etc.)? Não dá para evitar misturar carne com leite (filet a parmegiana)? Não dá para evitar comer carne não kasher? Escolha uma dessas opções ou aquelas que puder suportar e faça. Mas faça mesmo, sem condições e sem flexibilidade. Você vai ver como vai se sentir bem. E vai estar fazendo a coisa certa. Se trabalhar no centro, por exemplo, você pode almoçar kasher de segunda a quinta de graça. É só querer. Há um almoço para executivos no centro que é um sucesso. Vá um dia. Vá dois dias. Se puder, vá todos os dias. Eu procuro organizar minha vida social profissional de formas a estar lá todos os dias. Às vezes não dá. Mas muitas vezes dá sim e vale muito a pena. Se tenho que almoçar com algum cliente em algum restaurante, o que é inevitável às vezes, peço uma salada de tomate, palmito, aspargos e outras alimentos frios que têm menos problemas. É difícil? Não é tão gostoso? Comece devagar. Coma um peixe ao invés de uma carne. Vá a um japonês e não coma camarão. Faça algo. Qualquer esforço é sempre recompensado. D’us nunca fica devedor.

Uma vez eu recebi um e-mail do kolel dizendo para sempre que depois de recitar a benção “asher yatzar” que é uma benção que se faz depois de ir ao banheiro, dedicar essa benção para uma pessoa da comunidade que estava doente. Pensei, puxa, essa benção é justamente para agradecer a D’us por estar com tudo funcionando e posso dedicar a alguém que está com problemas de saúde. Vou fazer isso. Pensei que ia ser muito difícil porque é uma benção um pouco maior. Acreditem que D’us ajuda quando a coisa é boa e de tanto fazer, hoje faço essa benção em menos de 10 segundos. Mais uma mitzvá.

Umas das coisas mais importantes para nós desde tempos remotos é o conhecimento. Os judeus sempre buscaram a sabedoria e sempre desenvolveram seu intelecto de uma forma espetacular por causa disso e talvez por isso tenhamos tantos judeus com prêmios Nobel e tantas outras mentes brilhantes pelo mundo. E isso está diretamente vinculado com a principal parte da nossa história, a nossa Torá, o nosso livro. E temos que estudar a Torá sempre até para entender melhor as coisas que fazemos e aquelas que queremos fazer ou mesmo para aquelas que nem sabemos que deveríamos fazer.  Dizem que quando chegarmos lá em cima, vão nos perguntar: “você separou horários fixos para o estudo da Torá?”. Temos que poder responder que sim, porque é muito fácil fazer isso. A idéia é a seguinte: cada um deve ter um momento de manhã e um momento de noite para estudar pelo menos um pouquinho.

Recomendo comprar o livro Torá – A Lei de Moisés com capa azul. Não é muito caro e tem comentários muito legais e esclarecedores.

Lembram-se dos 10 minutos para colocar o tefilin. Dá para aumentar para 15 minutos? Pegue 5 minutos, isso mesmo, somente 5 minutos todo dia de manhã e leia um trecho da Torá, de preferência aquele que será lido no Shabat.   A noite, chegando do trabalho, encontre algum momento, mesmo que seja antes de dormir, e leia mais um trechinho por 5 minutos. Pronto. Já cumpriu com uma das mais importantes mitzvot que D’us nos deu e ainda vai ter como responder àquela pergunta depois de 120 anos.

Mais uma dica, sabem o almoço no centro de segunda a quinta? Pois é.  Se puder ficar um pouco mais, há aulas rápidas dadas por Rabinos para executivos nesses mesmos dias todas as semanas. É uma experiência maravilhosa poder parar no meio do dia, no centro da cidade, e ter uma aula de Torá que se aplica ao nosso cotidiano. Quem não puder ir ao centro, há aulas em Copacabana, Leblon, etc. Há aulas de manhã, de tarde, de noite, é só escolher um horário que você vai encontrar uma boa aula que vai dar muito mais sentido à sua vida.

O que eu queria trazer nesse artigo é a facilidade de se aproximar de nossas tradições com pouco esforço e muita recompensa. Comece aos poucos. Escolha qualquer uma das coisas que disse acima e faça. Nem que seja para trocar a marca da geléia. Qualquer coisa é bonita aos olhos de D’us.

E nada disso atrapalha a nossa vida profissional. Pelo contrário, posso lhes dizer com certeza absoluta que minha vida profissional melhorou muito, mas muito mesmo, depois que comecei a me aproximar de uma vida judaica.  Posso lhes assegurar que vocês terão muito mais sucesso e vão conseguir lidar com muito mais facilidade com os obstáculos que temos todos os dias. Alguém vai perguntar: trocar a marca da geléia vai me fazer ter mais sucesso? Mesmo podendo ser chamado de lunático, asseguro a vocês que sim. Não duvidem da sabedoria divina e da forma como ele organiza e direciona o mundo. Tentem, experimentem e vocês verão resultados internamente e externamente.  Posso dizer isso com segurança porque vivo as dificuldades do dia-a-dia de negócios como qualquer outro. E dá certo. É o certo. Procurem a beleza do judaísmo. Está bem pertinho de nós. É só procurar.

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