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IGNORÂNCIA, MENTIRAS E IDIOTICES parte 3

23.03.11  |   Conflito  |  Marcella Becker

IGNORÂNCIA, MENTIRAS E IDIOTICES EM RELAÇÃO AOS DISTÚRBIOS DO ORIENTE MÉDIO

HEITOR DE PAOLA

O CONFLITO OCULTO

As forças históricas que hoje disputam o poder no mundo articulam-se em três projetos de dominação global: o “russo-chinês” (ou “eurasiano”), o “ocidental” (às vezes chamado erroneamente “anglo-americano”) e o “islâmico”. (…) No terceiro, eventuais conflitos de interesses entre os governos nacionais e o objetivo maior do Califado Universal acabam sempre resolvidos em favor deste último, que hoje é o grande fator de unificação ideológica do mundo islâmico. (…) Embora em princípio as relações entre eles sejam de competição e disputa, às vezes até militar, existem imensas zonas de fusão e colaboração, ainda que móveis e cambiantes.

OLAVO DE CARVALHO

 

A análise política dos fatos no Oriente Médio (OM), com já afirmei no início deste artigo (parte I), continua sendo feita numa base que eu chamo de flat mind, que pode ser traduzido por ‘mente achatada’, ou bi-dimensional: tudo se resume a uma oposição entre ditadura e democracia e ponto final! Deve ser a influência da destruição neuronal causada por anos de adestramento canino em marxismo. Não há nuances, não existem outros fatores, nada, nem se leva em consideração possíveis conseqüências do desenrolar do movimento. Ouvi na CBN de uma das mais conceituadas analistas políticas das organizações Globo esta pérola: quando a gente sente este frêmito de liberdade, esta luta pela liberdade, nada mais interessa! É preciso apoiar esta juventude revoltada que só se interessa por ser livre! O que virá depois? Não sei, nem interessa, a liberdade é fundamental, depois eles resolvem.

Os donos do mundo 

Assim é a maioria, senão a totalidade, dos comentários baseados num feeling, numa ‘sensação de uma corrente de liberdade’: alguns comentam que quando vejo aquela juventude lutando, derrubando ditadores, sinto uma corrente de liberdade me perpassar! Como a única corrente que eu consigo sentir é a elétrica, se tocar em fios desencapados, prefiro usar meus conhecimentos e os de minhas fontes para basear minhas análises. É de uma destas, Olavo de Carvalho, que vem a explicação para este comportamento da mídia. No mesmo artigo que coloquei em epígrafe, acrescenta:

Praticamente todas as análises de política internacional hoje disponíveis na mídia do Brasil ou de qualquer outro país refletem a subserviência dos “formadores de opinião” a uma das três correntes em disputa, e, portanto o desconhecimento sistemático de suas áreas de cumplicidade e ajuda mútua. Esses indivíduos julgam fatos e “tomam posições” com base nos valores abstratos que lhes são caros, sem nem mesmo perguntar se suas palavras, na somatória geral dos fatores em jogo no mundo, não acabarão concorrendo para a glória de tudo quanto odeiam. Os estrategistas dos três grandes projetos mundiais estão bem alertados disso, e incluem os comentaristas políticos – jornalísticos ou acadêmicos – entre os mais preciosos idiotas úteis a seu serviço.

Esta é a razão pela qual os verdadeiros conflitos que subjazem a esta visão bi-dimensional tacanha – e inexistente – permanecem ocultos do grande público. E inúmeras perguntas ficam no ar:

- por que o ocidente ‘descobriu’ subitamente que os Presidentes e Primeiros Mandatários, antes respeitáveis, são ditadores que devem ser derrubados?

- por que a Arábia Saudita ofereceu ajuda a Mubarak, antes da queda e proibiu a Fraternidade Muçulmana em seu território?

- por que os Sauditas rapidamente aumentaram a produção de petróleo para compensar as perdas com o óleo líbio?

- por que a Turquia apóia incondicionalmente Khadafi?

- por que Khadafi acusa a revolta de uma manobra simultânea de Estados Unidos e a rede terrorista Al Qaeda?

- por que belonaves iranianas armadas com mísseis atravessaram o Canal de Suez, rumo à Síria?

- por que o Iraque e a Síria sumiram do mapa e o Iêmen e o Bahrein assumiram importância fundamental?

- por que o Bahrein pediu a intervenção Saudita?

- por que as organizações globalistas, como a AVAAZ uma das organizações globalistas ligada a Soros, espalham abaixo-assinados ‘contra a repressão’?

- finalmente, por que Obama deu todo apoio aos revoltosos?

Há alguma resposta que satisfaça a todas as perguntas acima? Há sim e vem a seguir. Mas antes, um pouco de história.

A PRIMEIRA EXPANSÃO DO ISLAM

O Alcorão foi revelado a Mohammad numa época em que o mundo vivia em sobressalto, enfrentando problemas religiosos, sociais e econômicos. Havia dois Impérios: o Persa e o Bizantino, que dividiam o poder entre si e apesar de suas sólidas forças militares, suas lutas políticas internas tiveram um papel preponderante no enfraquecimento de ambos. (…) Os Árabes viviam divididos em tribos que combatiam entre si e disputavam seitas religiosas. (…) O Islam e o Alcorão reuniram os Árabes que constituíram uma nação, que se expandiu pela terra para que nela, posteriormente, surgissem milhões de pessoas que abraçariam o Islam e seguiriam seu Livro.

SAMIR EL HAYEK

O Alcorão Sagrado – Apresentação

Ocupados em seus conflitos seculares, nem o Império Romano nem o Persa parecem ter suspeitado da propaganda pela qual Maomé, em meio a uma luta confusa de tribos, daria a seu povo uma religião que logo se projetaria sobre o mundo, junto com sua dominação. (…) A conquista árabe, que se desencadeia ao mesmo tempo sobre a Europa e a Ásia, é sem precedentes. Pode-se comparar com a rapidez das conquistas de Átila, Gengis Khan ou Tamerlão. Mas estes últimos foram tão efêmeros quanto a conquista do Islã será duradoura.

HENRI PIRENNE

Maomé e Carlos Magno

Tanto El Hayek, expoente da cultura islâmica brasileira, como Pirenne (1862-1935), um dos maiores historiadores católicos, Professor das Universidades de Ghent e Liège, Bélgica, concordam que a expansão islâmica se deu contra impérios já em fase de decadência. O movimento ocorreu com uma rapidez impressionante. Entre 634 e 641 tomou Damasco e depois toda a Síria, Jerusalém e atravessou o Jordão. Ao leste a Mesopotâmia e a Pérsia. Finalmente cai o Egito e de roldão todas as possessões bizantinas do norte da África, exatamente o Maghreb (palavra árabe que significa literalmente ‘lugar do pôr-do-sol: Oeste/Ocidente): Líbia, Tunísia, Argélia, Marrocos, Mauritânia o disputado Saara Ocidental. No século VIII as regiões ocidentais formavam o Reino Bérbere da Numídia até a invasão islâmica à qual resistiram por décadas, mas acabaram derrotados e islamizados.  Serão estes últimos os invasores da Espanha.

Notem os leitores a coincidência geográfica com o que está acontecendo na atualidade.

O Reino Bérbere estava isolado do sul da África, (a chamada África Sub-Saariana) pela cadeia de montanhas Atlas e pelo inclemente Saara e mantinha contatos maiores com os povos do Mediterrâneo Europeu, principalmente a Espanha. Islamizados, foi fácil cruzar o Estreito de Gibraltar e penetrar na região sul deste país, hoje Andaluzia, estabelecendo primeiro o Califado Árabe Umayyad e posteriormente os Impérios Bérbere-Islâmico dos Almorávides e dos Almohads (1040-1269). Mas os Pirineus não foram barreira intransponível e o Reino Franco Merovíngio, assim como a Aquitânia, foram invadidos pelo Emir da Espanha, Abd-er-Rhahman, que vem a morrer na Batalha de Poitiers, vencido por Charles Martel, precursor a Dinastia Carolíngia.

Detidos no ocidente, o fluxo islâmico voltou-se para o oriente. Em 751 o Turquestão é tomado da China. Outra onda de expansão parte de Bagdá e, atravessando o Golfo Pérsico, alastra-se em direção ao Irã, ao Afeganistão e ao norte da Índia. Dali, retomando forças, desloca-se para a Malásia, para a Indonésia, chegando até a ilha de Mindanao no sul das Filipinas. Em apenas quatro séculos, de 650 a 1050, considerados a Idade de Ouro do Islã, uma impressionante extensão de terra, com milhões de habitantes, convertera-se à religião do Profeta Maomé.

A TESE DE PIRENNE

Pirenne contesta a idéia comum de que a Idade Média se iniciou na queda do Império Romano com a derrota de Rômulo Augústulo e a tomada do poder pelo primeiro rei Ostrogodo, Odoacro, em 476. Pirenne observa que os Germanos que o venceram não o destruíram, pelo contrário, romanizaram-se e utilizaram-no econômica e culturalmente em benefício próprio.

Entre os germanos, o vencedor vai espontaneamente até o vencido. Entre os Árabes é o contrário: o vencido vai ao vencedor, e só pode ir se servir a Allah como ele o faz, lendo o Corão, aprendendo a língua (árabe), que é a língua santa e ao mesmo tempo língua mestra. O árabe toma o lugar do grego e do latim. Na Espanha, no século XI, mesmo os cristãos não sabem mais o latim: traduzem-se para o árabe os textos conciliares. (…) O germano se romaniza a partir do momento em que entra na România. O romano, ao contrário, se arabiza a partir do momento em que é conquistado pelo Islam. Não se permite mais qualquer influência que possa escapar ao controle de Allah. O direito do conquistador, baseado no Corão, toma o lugar do direito romano.

Não se ataca a fé Cristã ou Judaica. Ela são solenemente ignoradas! Vem daí a idéia da ‘tolerância religiosa’ prevalente no Al Andaluz. Só se exige a obediência a Allah, a submissão exterior de seres inferiores, degradados, desprezíveis: os dhimmis (ver o conceito em http://www.heitordepaola.com/publicacoes_materia.asp?id_artigo=1937).  Tolerados sim, mas vivendo na abjeção. Muito se fala na ‘civilização superior’ dos conquistadores, mas o que trouxeram consigo foi apenas a submissão a Allah:

… só querem tomar como butim a ciência e a arte dos infiéis, que cultivarão em honra de Allah. Tomam deles até mesmo as instituições na medida em que lhes são úteis. São levados a isto, aliás, pelas próprias conquistas: para governar o Império que fundaram não podem mais se apoiar em instituições tribais. Os vencidos são súditos, os únicos a pagar impostos, estão foram da comunhão dos crentes (ummah). (…) Nenhuma fusão pode haver entre as populações conquistadas e os muçulmanos. Que contraste formidável com um Teodorico, que se coloca a serviço dos vencidos e procura assimilar-se a eles!

Os germanos conservaram o mar Mediterrâneo como o “Mare Nostrum” dos romanos, dando continuidade ao comércio e aos intercâmbios do mesmo modo que o havia feito o império. Desse modo, os povos continuaram trazendo do continente as suas mercadorias e transportando-as pelo Mediterrâneo. Os Árabes, por sua vez, fecharam o Mediterrâneo à navegação européia, convertendo a Europa, antes marítima, numa Europa continental, reduzindo enormemente a sua riqueza.

O mar, que havia sido o centro da Cristandade, tona-se a sua fronteira. A unidade mediterrânica é rompida: às suas margens estendem-se doravante duas civilizações diferentes e hostis.

Por causa destas transformações radicais, diferentemente da conquista germânica, Pirenne data da invasão muçulmana da península Ibérica (711) o verdadeiro início da Idade Média.

Convencionado como o fim clássico desta era, o ano de 1453 é marcado por uma nova expansão islâmica, maior ainda que a precedente: o Império Otomano. Naquele ano cai Constantinopla, pondo fim ao Império Bizantino. Os Otomanos conquistaram a maior parte da Europa Oriental e quase todo o Mundo Árabe. Tiveram o seu apogeu com Suleiman, o Magnífico, cujas hostes alcançaram a Hungria e a Áustria. Como no primeiro período da expansão islâmica, os otomanos fundaram um império sobre o território europeu. O Império durou seis séculos e só acabou com a Primeira Guerra Mundial.

Há indicações claríssimas que um novo Califado, e uma nova Idade Média, se aproximam celeremente através do que é chamado de ‘frêmito de liberdade e democracia’.

A NOVA EXPANSÃO ISLÂMICA E O CALIFADO UNIVERSAL

Os movimentos ‘por liberdade e democracia’ que levam nossos comentaristas (sic) de política internacional a verdadeiros orgasmos estão sendo realizados por uma massa de manobras constituída de autênticos idiotas úteis, verdadeiras buchas de canhão, por organizações perfeitamente identificáveis, mas que se aproveitam da idiotia dominante nos ‘fazedores de opinião’ para se tornarem invisíveis aos olhos do público [[iv]]. Para os arrogantes defensores da idéia de que os ideais de liberdade e democracia são universais, e não exclusivamente Judaico-Cristãos,  é preciso lembrar que o último Império caiu há apenas 87 anos, em 1924, e que as tradições e cultura islâmicas permanecem até os dias atuais! A arrogância é irmã gêmea da estupidez.

Há seis anos o jornalista jordaniano Fouad Hussein entrevistou Abu Musab al-Zarqawi, um dos líderes da Al Qaeda para o livro Al-Zarqawi – al-Qaeda’s Second Generation  na qual ele revela um plano em sete etapas para a dominação do mundo pelo Islam (vale a pena ler um resumo na TheAge.com [[v]]). Embora elaborado pela Al Qaeda, ele é facilmente endossado com mínimas discordâncias pela Fraternidade Islâmica e outros movimentos políticos, religiosos ou terroristas.

FASE 1 – O “despertar” da consciência islâmica através do ataque ao WTC para provocar os EUA a declarar guerra ao Islam e mobilizar o radicalismo. COMPLETA

FASE 2 – O de “abrir os olhos” do Islam para a “conspiração ocidental” contra a Ummah. Deveria durar até 2006. COMPLETA

FASE 3 – “Despertar e levantar” com ataques freqüentes à Turquia e outros estados árabes seculares, além do arquiinimigo Israel 2006-2010. COMPLETA

FASE 4 – 2010-2013 – Provocar a queda dos regimes árabes odiados, especialmente a Arábia Saudita, aliada e fornecedora de petróleo aos EUA. Outros estados laicos como Jordânia e Egito também seriam alvos. Terrorismo cibernético contra os EUA e o Ocidente. EM EXECUÇÃO ATRAVÉS DOS MOVIMENTOS “PELA DEMOCRACIA”

PRÓXIMAS FASES:

FASE 5 – A declaração do Califado inicialmente na área original da primeira expansão mas já com o Ocidente de joelhos (2013-2016).

FASE 6 – A partir de 2016 “Confronto total” entre fiéis e infiéis

FASE 7 – “Vitória definitiva” (até 2020 ?)

Al-Zarqawi confia em que as divisões morais, religiosas e ideológicas no Ocidente anulariam a óbvia superioridade militar ocidental que não seria páreo para os 2 bilhões e meio de muçulmanos. A Fase 4, atualmente em progressão, é necessária porque os Estados Nacionais impedem a necessária unidade da Ummah, o sentimento de grupo a que se refere Ibn Khaldun. Para este autor as dinastias de grande poder e autoridade real são baseadas na religião, como no início da expansão islâmica os exércitos minoritários venciam oponentes de força muito maior (30.000 árabes venceram 120.000 Persas e 400.000 de Heráclito) por serem unidos pela força religiosa. Quando o sentimento de grupo se rompe, vários principados e emirados independentes se formam e a autoridade só pode ser mantida através de mercenários ou ‘povos clientes’ do Califado. Ibn Khaldun refere que assim ocorreu com o Califado Abássida de Bagdá – que dependendo dos Daylam, povo do sul do Mar Cáspio, e dos Turcos Seljúcidas acabaram entregando o poder a eles – e com o Omíada na Espanha: quando o sentimento árabe de grupo foi destruído, pequenos príncipes tomaram o poder e dividiram o território entre eles.

É o cenário atual do mundo árabe. Além desta desvantagem a expansão do novo Califado é dificultada pelos conflitos internos entre as duas potências: a Arábia Saudita sunita e o Irã xi’ita. Mas este será o assunto da parte IV.

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