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Escapando da Subjetividade

30.01.11  |   Derech Eretz  |  Marcella Becker

por Rabino Yitzchok Kirzner

Todos nós gostamos de nos considerar pessoas que buscam a verdade, de forma objetiva e imparcial. E gostaríamos de acreditar na nossa capacidade de alcançar um entendimento objetivo. Na verdade, entretanto, nossas atividades intelectuais – especialmente nossa procura por um sentido e um propósito na vida – estão inevitavelmente tingidas por nossos desejos. É impossível escapar da subjetividade.

Mesmo quando escolhemos tópicos para dirigir nossas energias mentais, esses tópicos estão em função de uma vontade ou de um desejo pré-existente. Porque uma pessoa, por exemplo, entra numa livraria e fica rondando a seção de livros de cozinha chinesa enquanto outra procura trabalhos de filosofia grega? Somente uma conexão pré-existente ao nosso acervo de conhecimentos ou ao da outra pessoa pode explicar a escolha.

Se a subjetividade desempenha um papel tão amplo na escolha da informação que vai forjar nossa compreensão, então, necessariamente, ela vai também colorir os resultados desses esforços. É óbvio que matérias primas diferentes levam a resultados diferentes.

O desejo e a vontade determinam, não somente a informação que a pessoa processa, mas também como esta a afeta. É possível adquirir um conhecimento real sem ter afinidade ou interesse no fato, mas a informação adquirida com este conhecimento não vai nunca mudar a visão que temos de nós mesmos ou do mundo. É isso que nossos sábios querem dizer quando declaram que “uma pessoa só aprende Torá quando é de uma fonte (i.é. quando é um tópico) que seu coração deseja” (Talmud – Avodá Zará 19a).

A ênfase está na palavra “aprende”. Sem interesse não pode haver educação. Todos os educadores de sucesso são motivadores por excelência, porque sem motivação é impossível ensinar. A cada manhã, antes de estudar a primeira palavra de Torá, recitamos uma bênção. Nesta bênção incluímos uma oração curta pela qual pedimos que D´us torne as palavras da Torá doces em nossas bocas (Talmud – Brachot 12b). Não há nenhuma outra mitsvá precedida por um pedido similar. Antes de colocar os tefilin, por exemplo, não pedimos a D´us para, por favor, tornar a mitsvá prazerosa. Estudar Torá é diferente. Sem doçura não conseguimos internalizar a Torá.

O reconhecimento da correlação existente entre nosso interesse e nossa habilidade de absorção nos leva a conclusões perturbadoras. O interesse e o desejo não são apenas meios para internalizar o conhecimento mas também para colori-lo. Se prestarmos atenção apenas às partes da informação que nos interessam, qualquer pesquisa intelectual terá, obviamente, um enorme componente subjetivo. As informações percebidas como benéficas para nós vão assumir uma exagerada importância e as outras, que nos ameaçam, de alguma maneira serão filtradas.

A Torá se refere exatamente a isso no Shemá, a afirmação básica da fé judaica. No seu terceiro parágrafo faz-se o seguinte pedido: “não seguireis atrás de vosso coração, … pelos quais vos desviais…” (Números 15:39) O Talmud interpreta “seguir atrás do coração desviando-se” como seguir falsas ideologias e crenças falsas sobre D´us (Talmud – Brachot 12b).

O Rabino Elchonon Wasserman, um dos grandes líderes do judaísmo europeu na geração que conduziu ao holocausto, perguntou: Se a Torá nos adverte contra as falsas ideologias e filosofias, porque fala do coração e não da mente? E ele mesmo responde: As falsas crenças são erguidas não tanto por um defeito na inteligência mas por um coração pervertido. O coração é o lugar dos nossos desejos e vontades e estes desejos são a fonte de todo pensamento distorcido.

Para confirmar esta idéia, sabe-se que é possível reduzir a subjetividade a ponto de uma pessoa poder adquirir controle sobre seus desejos e diminuir assim a possibilidade de ser influenciada. É por isso que refinar o caráter é uma pré-condição para adquirir grandeza no estudo da Torá.

Entretanto, independente de quanto minimizamos nosso auto-interesse, o desafio que surge com os sofrimentos nos enfrenta com outras limitações inerentes. As respostas definitivas aos nossos questionamentos dependem necessariamente do conhecimento dos caminhos de D´us e de como Ele dirige o mundo. Como seres finitos, entretanto, não podemos conhecer os caminhos de um D´us infinito e nosso intelecto não consegue compreender os Seus caminhos. Como Maimônides escreve: “Sua sabedoria não é como a sabedoria da pessoa mais sábia, e a diferença entre Ele e Suas criaturas não é meramente quantitativa mas absoluta.” E agora que precisamos enfrentar esta barreira à compreensão intelectual, o que vamos fazer? Será que devemos simplesmente jogar a toalha (desistir de entender)? Esta resposta é altamente insatisfatória. Além disso não é uma resposta judaica.

Mais que qualquer outra religião o judaísmo exige um esforço intelectual rigoroso e contínuo. É claro que não somos apenas ‘criaturas pensantes’; como judeus e seres humanos, o intelecto é uma parte crucial da nossa essência. Qualquer relacionamento com D’us em que nosso intelecto não está comprometido não consegue nos levar aos níveis mais profundos do nosso ser. Precisamos levar nossa investigação intelectual tão longe quanto possível, mesmo que isso deixe à mostra as nossas limitações inerentes. Não podemos nem renunciar totalmente ao nosso intelecto nem depender só dele.

O judaísmo não vê o pensamento como a única fonte de conhecimento ou de verdade. Nem limita a verdade apenas às afirmações que podem ser verificadas da mesma maneira que uma proposição lógica. Limitar nosso conhecimento do mundo àquilo que pode ser filosoficamente ou cientificamente provado banaliza o pensamento, confinando-o a uma esfera muito estreita. A poderosa, embora limitada, visão da ciência é igualada à realidade total, e portanto exclui do reino da pesquisa legítima todas as questões morais, bem como a natureza de D´us e nosso relacionamento com Ele.

D’us, na Sua essência, não pode ser conhecido, mas isto não significa que Ele não exista. A totalidade dos seus caminhos é insondável, mas isto não quer dizer que Ele não tenha caminhos.

O esforço intelectual continua sendo terminante, mas precisa ser unido a outro elemento: a confiança. A confiança é o que sobra, quando vamos tão longe quanto podemos no entendimento intelectual e ainda assim não obtemos respostas satisfatórias. Confiança é a certeza de que há um sentido nos caminhos de D’us — mesmo quando o acesso a esses caminhos nos é negado.

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