• Twitter
  • Facebook
Home \ TORÁzinha \ Encontro no Aeroporto

Encontro no Aeroporto

30.01.11  |   TORÁzinha  |  Marcella Becker

por Esther Stern (com licença da revista InnerNet Magazine)

Era uma fria manhã de inverno. O Rosh Yeshivá de Telz em Cleveland, rabino Mordechai Gifter, estava no balcão de uma linha aérea, a ponto de embarcar num vôo para Nova York. Um dos seus estudantes mais queridos tinha incluído com os convites para seu casamento, nove passagens aéreas de Cleveland para Nova York.

O Rabino Mordechai Gifter e oito estudantes embarcaram na aeronave. Depois de acomodar a bagagem de mão nos compartimentos acima dos seus assentos, sentaram-se, preparando-se para um vôo de duas horas. E já se imaginavam desejando alegremente ao noivo “Mazal Tov” e dançando na sua simchá (alegria). Mas D’ us tinha outros planos.

“Senhoras e senhores, este é o capitão falando”, ecoou uma voz pelo alto falante. “Devido ao mau tempo em Nova York não poderemos aterrissar no Aeroporto Kennedy. A neve na pista chega à altura dos joelhos. Todos os vôos partindo de lá foram cancelados e os aviões que chegavam tiveram suas rotas alteradas para outros aeroportos. Os controles de terra acabam de avisar-nos, ao co-piloto e a mim, para nos dirigirmos ao Aeroporto Nacional de Washington”.

E assim, o Rabino Gifter e seus oito estudantes se viram obrigados a passar as longas horas da tarde no aeroporto de Washington enquanto a muitas milhas dali transcorria o casamento do seu querido amigo e aluno sem eles.

O tempo lá fora, antes cinzento, foi ficando escuro à medida que a tarde se transformava em noite. Já era hora de Ma’ariv, a oração da noite. Procurando um canto mais isolado onde pudessem rezar, o grupo passou por um limpador do aeroporto que estava esfregando o chão.

“Desculpe”, disse educadamente um dos estudantes, “o senhor sabe onde podemos encontrar uma sala vazia para fazer nossas orações noturnas?”

Pela reação do homem parecia que ele nunca vira judeus observantes na vida. O esfregão caiu ruidosamente no chão em sinal de alarme e ele ficou observando os homens, boquiaberto, como se tivessem caído da lua.

Um dos alunos deu um passo adiante e explicou “um lugar onde possamos rezar”, pronunciando cada palavra em voz alta e imitando um homem rezando.

Isto ajudou o limpador a entender o que procuravam e ele acenou lentamente em direção a uma sala do estoque onde poderiam fazer suas orações sem serem perturbados.

O grupo começou a rezar. Mas o limpador, em vez de ir embora ficou parado em silencio na porta, olhando para eles atentamente, com uma expressão confusa na face. Depois de concluírem a reza ficaram atônitos quando ele lhes perguntou, “Porque não fizeram Kadish?”

“Precisamos de um minian para o Kadish – quer dizer dez homens adultos”, explicou um dos rapazes, “e está faltando uma pessoa para completar o minian”.

Para sua total surpresa o limpador respondeu, “Eu sou judeu. Eu vou me unir ao grupo de vocês para completar o minian. “Por favor,” rogou, “deixem-me dizer o Kadish”.

            O Rabino Gifter e os alunos concordaram de boa vontade. O delgado funcionário do aeroporto, luzindo seu macacão de trabalho verde, abandonou o pano de chão e o balde e timidamente caminhou até o centro da sala. Começou a recitar o kadish de maneira entrecortada, tropeçando nas palavras em aramaico, pouco familiares para ele. Quando se deram conta que seu conhecimento do texto era virtualmente inexistente, com paciência o ajudaram a recitar o kadish, palavra por palavra, até que ele tivesse pronunciado corretamente cada termo difícil.

Depois de concluída a recitação, ele respirou fundo e disse suavemente, “como vocês podem ver, não fui criado como um judeu praticante; mal conheço algo de judaísmo. Tive uma terrível briga com meu pai há uns dez anos, antes da sua morte. Depois disso, todo contato entre nós foi cortado. Eu nem mesmo fui ao seu enterro”.

“Mas ontem à noite ele me apareceu num sonho e disse, ‘Eu sei que está zangado comigo – você nem sequer veio ao meu enterro – apesar disso você é meu único filho. Você precisa dizer o kadish para minha alma com um minian, um quorum de dez homens judeus!’”

“Como posso dizer o Kadish?’ repliquei, com medo que ele desaparecesse antes de eu ter a chance dele me dar um conselho, ‘eu mal sei proferir as palavras! Além disso, como posso encontrar um minian?’”

“Eu vou conseguir para você”, assegurou meu pai, e eu acordei.

“E agora vocês estão aqui, exatamente nove”, continuou o empregado, com uma voz admirada. “O céu, literalmente, mandou vocês para que eu possa dizer o kadish em benefício da alma do meu pai!”

Então o rabino Gifter lhe contou o seu lado da história – como eles tinham chegado a este lugar. “Olha como D’us dirige o mundo!”, disse maravilhado o rabino Gifter. “Olha como ele orquestrou nosso encontro! Nove convites para um casamento, uma violenta tempestade de neve em Nova York, as rotas dos aviões desviadas para o Aeroporto Nacional de Washington, perdemos o casamento, tudo isso aconteceu para que você pudesse dizer o Kadish para seu pai!”

A surpreendente cadeia de acontecimentos teve um impacto tão profundo no empregado do aeroporto que não precisou de muita persuasão de parte do Rabino Gifter para estimulá-lo a continuar fazendo o Kadish com minian. E a preciosa mitsvá foi o ponto de partida para o retorno completo deste homem às suas raízes judias.

Comentários fechados.